João Paulo Vaz

Alice entre as ferragens

 

João Paulo Vaz

O séc’lo – traça que medra
Nos livros feitos de pedra –
Rói o mármore cruel.
O tempo – Átila terrível
Quebra co’a pata invisível
Sarcófago e capitel.
(“O fantasma e a canção”, Castro Alves)

 

A qualidade mais forte daqui é a imobilidade. Não existe uma única árvore que o vento balance, e o vento mesmo é tão raro e tão fraco que mal levanta alguma nuvem de pó. Os poucos bichos se fundem nas sombras: alguns ratos e gatos à noite, um ou outro cachorro magro quase imóvel, pássaro nenhum. O castanho alaranjado das carcaças enferrujadas, conforme o dia, contrasta com o azul, o branco ou o cinza do céu; à noite, tudo se dissolve na escuridão. O ferro-velho é um cemitério industrial de esqueletos expostos nessa zona cinzenta da periferia; um lugar de passagem na beira da estrada, nem na cidade nem no campo, fora do movimento e do tempo.

No mais é a estrada. As seis pistas de asfalto reverberando noite e dia o ronco impessoal dos motores. Só ali há movimento. Aqui dentro, incorporamos a imobilidade do lugar, interrompemos nossas histórias e ficamos suspensos fora do tempo. Gestos mínimos, palavra quase nenhuma. Olhamos a estrada e basta. Seu fluxo constante preenche toda nossa necessidade de movimento, nosso anseio humano por um tempo contínuo, por uma narrativa – mínima e vazia que seja – sobre de onde viemos e para onde vamos. O humano aqui só se manifesta no olhar a estrada.

Dizem que Nicolau, o dono, pegou anos de cadeia por desmontar carros roubados. Mas quando ele levanta os olhos da estrada, eu vejo, no fundo deles, mais que desmontagem de carros. O importante, porém, é que Nicolau não faz perguntas. Por isso interrompi aqui minha fuga e fui ficando, ajudando a carregar e descarregar uma peça ou outra em troca de arroz, feijão e um canto onde dormir. E o acordo tácito de que nenhum de nós dois tem um passado.

Gosto de vagar entre as ferragens, examinar restos ferruginosos de automóveis, geladeiras, fogões, máquinas de lavar – os dejetos do luxo, do conforto, do consumo exacerbado da cidade grande. Isto aqui é uma espécie de esgoto tecnológico a céu aberto. Gosto de ver as marcas do tempo no metal, nos objetos sólidos, nos chamados bens duráveis. Estes que não são os sinais sutis do tempo – uma nova ruga, fios brancos na barba – mas as suas marcas violentas: as carrocerias corroídas, as estruturas desconjuntadas. As marcas, não do tempo civilizado dos mostradores de relógios digitais, mas de um tempo bárbaro, o Átila terrível que quebra com a pata invisível sarcófago e capitel.

Também me atraem os automóveis destroçados. Além da passagem do tempo, eles registram tragédias instantâneas, frações de segundo em que alguma vida mudou radicalmente de rumo ou acabou de todo. O desastre: um segundo antes, o movimento, a velocidade, o conforto e o luxo; um segundo depois, esta ruína imóvel que a ferrugem vem comendo desde então. Entre as carrocerias retorcidas, a ilusão e a fragilidade humanas ficam gravadas mais claramente do que em qualquer outro lugar.

Mas minha peça preferida é o pequeno guindaste em decomposição no fundo do depósito. É o que de mais parecido com uma árvore existe por aqui. Do braço erguido como um tronco enferrujado, pendem restos de correntes. E a cabina alta é um posto privilegiado de observação de tudo o que neste último ano se tornou o meu mundo. De dentro dela, vejo o depósito inteiro, e as seis pistas da estrada até o horizonte indefinido onde o asfalto e a fumaça dos escapamentos se fundem e os caminhões desaparecem.

De tanto passear entre as ferragens, e graças a uma espécie fotográfica de memória, aprendi o lugar de cada peça no depósito. De carregador, virei aquele-quesabe- onde-estão-as-coisas, e Nicolau passou a me dar um dinheiro de vez em quando.

Eu estava cansado de fugir e contente em poder parar aqui, onde os dias eram sempre os mesmos, até Alice e o menino aparecerem há dois meses, do nada assim como eu, num final de tarde, de um caminhão que parou só o tempo de os dois saltarem. Foram ficando, também, sem perguntas e sem explicações, e ela passou a cozinhar para nós. Sofrivelmente – é verdade – mas bem melhor do que Nicolau.

Alice é estranha. Magra, pálida, cabelos claros escorridos, bem-feita de corpo, bonita até – de uma beleza discreta. Outra mulher qualquer, vagando distraída como ela entre as ferragens, já teria sido estuprada em algum canto do depósito. Alice não. Os poucos compradores, vendedores e vagabundos que passam por aqui a evitam. Talvez por causa do seu andar deslizante, meio fantasmagórico, que remete mais à morte do que ao sexo; ou dos olhos trágicos de quem já viu o lado de lá do horror. Ou do menino, mais fantasmagórico ainda, os olhos negros imensos sempre cravados nela. Alice e o menino nunca se separam. Ele deve ter uns cinco ou seis anos, é magro e pálido como Alice, mas seu cabelo, diferente do dela, é preto e encaracolado. Não fala e não tem nome. Alice o chama simplesmente Menino. No dia em que lhe perguntei o nome dele, ela me olhou como se não entendesse a pergunta e depois de algum tempo respondeu: “Menino”.

Desde que chegaram, tenho estado tenso. Me pego olhando Alice mais do que a estrada, às vezes esqueço o lugar das coisas, já não me sinto tão seguramente parado no tempo. O contraste entre a suavidade dela e a dureza retorcida das ferragens perturba o equilíbrio desta suspensão temporal em que encontrei descanso e proteção. Há em Alice um presságio de drama que me deixa ansioso. Ou talvez seja só por ela ser mulher e a feminilidade não ser compatível com este lugar.

Um dia a encontrei pendurando-se nas correntes enferrujadas do guindaste. “Cuidado, pode se romper e cair em cima de você”. “Distrai o menino”, ela respondeu baixo e continuou agarrada às correntes. Foi no mesmo dia em que ela e o menino passaram mais de uma hora olhando o corpo de um cachorro atropelado. Antes de morrer, o bicho havia se arrastado até a beira da estrada, deixando na pista um rastro de sangue e vísceras esmagadas.

Então, hoje, no final da tarde, eles vieram sem qualquer aviso. Os dois carros chegaram ao mesmo tempo. Do primeiro, um carro de patrulha ainda em movimento, pularam dois policiais; do segundo, saltaram dois homens de terno. “Não é possível que tenham vindo atrás de mim depois de tanto tempo”, pensei. Mas por via das dúvidas desapareci entre as ferragens, fui até o fundo do depósito e fiquei observando da cabina do guindaste. Um dos homens de terno – o mais velho do grupo e o último a saltar – dirigia a operação. O outro mostrou papéis a Nicolau. Os policiais saíram vasculhando o depósito. Eu me prepararei para saltar o muro dos fundos, mas logo um deles voltou trazendo Alice e o menino, e todos se juntaram em volta dos dois. Discutiram. Nicolau agarrou o cara dos papéis pela gola do paletó e levou um tranco de um dos policiais. Os outros separaram à força Alice do menino.

O grito de Alice vibra entre as ferragens e nos meus ossos. Soa como as buzinas a ar comprimido dos caminhões maiores. Quebra para sempre uma certa qualidade do silêncio deste lugar. Os sujeitos de terno arrastam o menino até o carro e partem. Alice se debate entre os policiais. Quando eles também vão embora, saio do meu esconderijo e atravesso o depósito como se fosse a primeira vez. As carcaças enferrujadas já não são referências sólidas ancoradas num tempo estático; agora são massas disformes, indecifráveis, grandes aves metálicas de mau agouro.

O tempo arrebenta as amarras, escapa, inunda minhas artérias. Chego aflito ao portão onde Nicolau olha furioso a estrada. “Alice? Onde está Alice?” A resposta dele é um gesto vago na direção de onde eu vim. Volto. Procuro Alice com uma urgência crescente e sem sentido. Corro até o guindaste. O que vejo primeiro entre as ferragens são os pés dela, muito brancos, imóveis, a dois palmos do chão. Sinto os joelhos moles, o estômago contraído, uma dor como eu tinha chegado a acreditar que jamais voltaria a sentir.

Só então percebo que ela está apenas se pendurando nas correntes com as mãos, como da outra vez. “O menino gostava tanto”, murmura. E meu corpo todo relaxa tão bruscamente que fico tonto. Quando ela afinal se solta, tem as mãos vermelhas, arranhadas, sujas de ferrugem. Eu queria ter um lenço branco claríssimo, para limpar as mãos dela de um modo tão suave quanto o seu andar e a curva dos cabelos sobre os ombros. Subo até a cabina, irremediavelmente desalojado daqui. O chamado da estrada é outra vez uma sentença irrecorrível. Alice sobe também e ficamos olhando juntos as seis pistas de asfalto e o Sol que desaparece por trás da fumaça dos motores.


Uma resposta para “Alice entre as ferragens”

  1. LIA

    Nossa, que conto lindo! Só emoção esse amor nascendo no homem,num ambiente e de uma sutileza dramática,tão improvável…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

© 2012 - João Paulo Vaz | Todos os direitos reservados