João Paulo Vaz

Fascinante banalidade

João Paulo Vaz estréia na literatura com os simples e bem escritos contos de Sete estações

Jornal Rascunho, outubro de 2008
por André Giusti

Sempre quis escrever sobre os contos de Sete estações, livro de estréia de João Paulo Vaz, publicado na coleção Rocinante da editora 7Letras. Ao fim de 105 páginas, enxerguei diversos motivos para isso, entre eles o mais importante a meu ver: o livro é bom. Aliás, é muito bom. Mas como esse motivo, principal, não é auto-explicativo e por si só não justificaria uma resenha, vamos aos outros que dão sustentação ao maior de todos.

Pra começo de conversa João Paulo Vaz escreve para que as pessoas entendam suas histórias, que por sua vez possuem início, meio e fim bem resolvidos, nada mais tradicional em literatura, nada melhor para que o leitor seja capturado pelo texto e por ele só seja libertado muito tempo depois de encerrada a leitura. Quando um conto de Sete estações acaba, sabe-se claramente onde o autor quis chegar e o que ele quis dizer, ou seja, o básico da literatura foi alcançado.

O livro reúne 21 contos, dos quais sete são excelentes. Antes que alguém precipitado não ache a proporção considerável, eu pergunto se nesse país publicam-se todos os dias livros de estréia cujo um terço dos contos é excelente. O restante do livro divide-se em histórias muito boas e uma ou outra razoável. Nos dois últimos casos podem ser incluídos logo os três primeiros contos – Babi, Sessão da tarde e Planos – que prendem a atenção do leitor com tramas ágeis, mas ficam um pouco arranhados por uma certa obviedade no final.

Calma, ainda faltam 18 histórias, e no quarto conto – Caminho da salvação – o leitor começa a enxergar o motivo principal dessa resenha, o de que Sete estações é um bom livro. O personagem principal desse conto é um traficante convertido em crente. Ele, o personagem, narra a história com a linguagem bem coloquial dos que não tiveram a oportunidade de completar os estudos, mas que nem por isso assassinam a concordância ao extremo de “nós vai” ou “a gente fomos”, construções muitas vezes usadas por escritores que, com uma certa empáfia acadêmica, acreditam que assim retratam fielmente o povo, sem se darem conta de que podem estar esbarrando perigosamente no deboche ou, no mínimo, forçando uma barra. Usando as preposições erradas e colocando mal os pronomes, como quase todos os brasileiros, o bandido que abraçou Jesus mostra como ódio e amor divino vão se pegando dentro dele.

Pulemos o conto que vem em seguida – As tias – para cairmos no universo doentio do personagem de A espera, uma história simples, um cara que perde a namorada para um coroa rico, um enredo banal, que poderia muito bem estar por aí, na letra de algum pagode ou música sertaneja, contaminando nossos ouvidos. É nesse conto que descobrimos outro dos motivos que fazem de Sete estações um bom livro. João Paulo Vaz gosta de histórias corriqueiras, banais. E que valor possuem os escritores que enxergam o outro lado do banal, transformando o corriqueiro em fascinante. É assim que acontece também em Estiagem, onde um casal pobre perde o bebê arrastado pela enchente, nada que não apareça com freqüência no Jornal Nacional para que a classe média se compadeça e se esqueça antes do primeiro intervalo da novela. Só que a TV não mostra a rotina de duas vidas que perderam o sentido, nem mostra que um ato aparentemente enfurecido pode significar a salvação do que ainda existe nessas vidas. É o banal deixando para trás o seu próprio significado para virar boa literatura, da mesma forma que em Conversa de bar (alguém tem um título mais comum?). Uma jornalista de 34 anos, casada com um daqueles chatos e arrogantes velhos homens de imprensa, assume finalmente a tal crise de relacionamento e incomoda os leitores que já passaram dos 30 aos constatar que ainda é nova, mas já não tem mais todo o tempo do mundo.

Relacionamento homem-mulher é igualmente o tema de A ordem e o caos. Um homem que está deixando a meia-idade para ingressar na velhice, vê a arrumação de sua casa e de seu mundo invadida por uma quarentona que desfez o casamento e não tinha para aonde ir, filha de uma velha amiga que inclusive já morreu. Ele é sistemático, solteirão metódico. Ela não cumpre horários, acorda ao meio-dia, volta de madrugada. Os dois, é claro, têm um caso, a forma lógica para confrontar ordem e caos. Mas não esperem coisas batidas como ele entrando no chuveiro e deparando com as calcinhas dela penduradas na torneira, ou ela passando a acordar às sete da manhã para caminhadas saudáveis. Não, isso fica para os seriados engraçadinhos da TV. O que encontramos é uma bonita história de amor sem a xaropada do “ele mudou a sua vida; ela o transformou em outro homem”. Pelo contrário, continuam sendo os mesmos. É mais uma vez o banal se recusando a cumprir seu papel diário. A ordem e o caos é, na verdade, o melhor momento de Sete estações, e poderia perfeitamente emprestar seu título ao livro, já que o conto Sete estações é bom, mas não possui tal ordem de grandeza. Bem, mas ninguém deve discutir o nome que um pai resolve dar ao filho.

João Paulo Vaz encerra seu livro de estréia com outros dois belíssimos momentos: Tocaia e O último insulto. No primeiro, o escritor especialmente urbano que ele é, consegue levar o leitor para a um sertão perdido lá em deus me livre, para mostrar a aplicação à realidade do ditado que diz que a vingança é um prato que se come frio. No segundo, o mesmo escritor especialmente urbano está em seu hábitat natural e cria um personagem que faz o que todo mundo, ao menos uma vez na vida, teve vontade de fazer. A não ser que você nunca tenha tido chefe ou patrão.

O mais importante de tudo, no entanto, é que João Paulo Vaz não enrola o leitor, não entope nossas vistas com parágrafos confusos e vocabulário pedante, não se tranca num texto hermético, que não é denso coisa nenhuma, é incompreensível mesmo, e cujo único objetivo é passar a sensação de que o escritor é “maravilhoso”, e você, coitado, pobre mortal que gosta de boas histórias, é uma pessoa incapaz de entender o quão “fascinante” é a cabeça dele. Sem compor personagens que, a pretexto de serem ricos psicologicamente, são uns verdadeiros chatos que ninguém gostaria de conhecer, João Paulo Vaz escreve sobre violência sem querer ser igual a Rubem Fonseca, mania de muitos novos escritores que posam de realistas. Fala de sexo sem achar que o melhor caminho para isso é o da velha baiana da Casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. João Paulo Vaz não escreve atropelando vírgulas e pontos, não estrutura diálogos em que é impossível se saber quem está falando, e que a título de experimentalismo ou de “subverter a ordem vigente”, disfarçam na realidade desconhecimento da língua portuguesa e uma baita falta de talento para escrever.

Enfim, o que se encontra em Sete estações é um belo livro, desses que são capazes de fazer com que fila do INSS ande rápido. Os defeitos existem, pois é um livro de estréia. Mas será preciso muita má vontade para que eles roubem espaço das virtudes em qualquer avaliação crítica, ainda mais depois que descobrimos que João Paulo Vaz só começou a escrever ficção há quatro anos, aos 50 de idade. Antes só escrevia artigos sobre computadores. Não sei se o mundo da informática perdeu alguma coisa com isso, mas a literatura ganhou um grande contista.

André Giusti é jornalista e escritor. Autor de Voando pela noite (até de manhã), A solidão do livro emprestado, e Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília.


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