João Paulo Vaz

Greg Sam

(7Letras, Rio de Janeiro, 2015)

“A verdade é que ela havia sentido um alívio semelhante ao de quando a botina poderosa do pai esmagava uma barata na cozinha. Mas agora não era de uma barata que se tratava. Era Gregório, seu irmão querido.”

“Por alguns segundos, ela se entregou à fantasia desesperada de que ele voltaria com uma explicação plausível – tinha sido só uma ilusão, uma brincadeira estúpida de Gregório, ou o engano provocado por um jogo de sombras, uma dessas peças que a luz oblíqua da manhã às vezes nos prega.”

 

Gregor Samsa todo mundo conhece. O clássico personagem de Franz Kafka acabou por afirmar a força de uma “literatura menor”, minoritária, como mostraram Deleuze e Guattari. Mas nesta novela vibrante de João Paulo Vaz o leitor terá o impacto renovado de conhecer Gregório, supervisor de telemarketing que passará por uma espécie de segunda metamorfose, transformando-se afinal em Greg Sam – cuja contemporaneidade não concorre mas presta homenagem ao caixeiro viajante da narrativa na qual se baseia, e da qual também se descola.

A atualização no tempo e no espaço é feita com apuro e ironia: Gregório e sua família vivem em uma vila do subúrbio, zona intermediária “onde repousa soterrado em tédio o núcleo arcaico do país.” É ali que o ponto de vista da irmã Greta, fã de pagode e frequentadora do salão de beleza do bairro, promove um primeiro e ainda sutil deslocamento no leitor familiarizado com a trama original. A proximidade permite revisitar os meandros de sua estrutura ficcional e de seu estilo, mas não se estenderá.

Ao substituir as forças produtivas e econômicas que antes conduziam o destino de Gregor pelos valores contemporâneos determinados por aparências, encenação e poder manipulador de um sistema midiático, Vaz não apenas atualiza, mas dá ‘continuidade’ à tarefa kafkiana de conferir ao absurdo a credibilidade do real. O resultado é uma narrativa ágil que mantém e ao mesmo tempo reinventa a fria dicção kafkiana e seu realismo, imprimindo um mesmo efeito raro: a enganosa ausência do autor que cede o seu lugar (de celebridade) para uma literatura de caráter imediatamente político.

Um dos maiores contistas do país, João Paulo Vaz faz nascer Greg Sam para nos lembrar de que, nestes tempos em que a vida cotidiana e comum torna-se cada vez mais indecifrável e inexplicável, o mundo kafkiano é aqui e agora.

Marta Barcellos

Marta Barcellos é Jornalista, escritora e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (PUC-Rio); autora de “Antes que seque” (Record) – Prêmio Sesc de Literatura de 2015.

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