João Paulo Vaz

O Livro Negro dos Desaforos

 

João Paulo Vaz

O agente dos Correios Emiliano Augusto Torres, recém chegado de Belo Horizonte, podia ser considerado um intelectual naquele aglomerado de três mil almas, encravado na Serra da Mantiqueira. Solitário, sempre às voltas com livros, escrevia bem. Acabou contratado como cronista do Voz da Serra, jornal de oito páginas, impresso a cada sexta-feira.

As primeiras crônicas agradaram. Bem-escritas, apesar de algum excesso de adjetivos, descreviam o encantamento do recém-chegado com a beleza natural do lugar.

Emiliano vivia do salário dos Correios. O que recebia como cronista era pouco mais que simbólico. Mesmo assim, passou a se ver e a ser visto não como o agente postal que escrevia crônicas nas horas vagas, mas como o cronista que trabalhava nos Correios. Diferença talvez sutil, mas não para ele, amante acima de tudo das Letras.

Na condição de intelectual e cronista, começou a receber convites e a frequentar a vida social da cidade. Tudo foi muito bem até que, estimulado por um convívio a que não estava acostumado, Emiliano se pôs a retratar o povo da cidade, em especial seus representantes mais ilustres. O problema é que ele tinha desses personagens uma visão crítica aguçada, agravada pelo distanciamento de quem veio de fora. Tão rápido quanto lhe haviam granjeado fama de cronista, seus textos lhe trouxeram um monte de desafetos.

Desaforado. Foi como passaram a se referir a ele.

Acabaram os convites. Emiliano não se importou. Ao contrário, com mais tempo livre, mais se dedicou a suas crônicas. Impávido, apaixonado pelas palavras, só à ortografia e à gramática se sentia na obrigação de prestar contas. Da crítica de sua pena ninguém escapava: nem o delegado, nem o prefeito, nem o próprio dono do jornal. A demissão não demorou.

– Não vai escrever desaforo pra mais ninguém – rosnou o editor ao demiti-lo.

– Podem me impedir de publicar, mas não de escrever – foi a resposta tranquila de Emiliano. Na verdade, considerava a publicação uma função menor da literatura. Escrevia para registrar, fixar, impor um mínimo de ordem à mutação caótica do mundo.

Acabaram-se as crônicas semanais, para alívio da cidade. Mas Emiliano passou a andar com um caderno grande, de capa preta dura, como aqueles em que os tabeliães lavram escrituras. Quem entrava na agência dos Correios a qualquer hora em que ela estivesse vazia, encontrava Emiliano escrevinhando o Livro Negro dos Desaforos, como foi batizado pelo povo. Ao restaurante onde costumava almoçar, ao bar onde tomava uma cerveja no final do expediente, a todo lugar, Emiliano carregava o caderno preto e, vira e mexe, rabiscava nele alguma coisa.

Em pouco tempo, o Livro Negro se tornou ameaça maior do que as crônicas. Nelas, ao menos, sabia-se o que vinha impresso. O que ia naquele livro só se podia imaginar; e o imaginado, como se sabe, não tem limite.

Correu o boato de que Emiliano ia ser publicado na Capital. Desaforos muito maiores que os das crônicas semanais correriam o estado inteiro, o país. E sem possibilidade de defesa. Ninguém na cidade tinha voz que pudesse ser ouvida em todo estado, muito menos fora dele.

Consciente ou inconscientemente, Emiliano, por sua vez, apreciava a aura de poder que o temor dos outros lhe outorgava. Sentava-se no bar, punha o Livro fechado sobre a mesa, pedia uma cerveja e bebia devagar, passeando entre os presentes um olhar inquisidor. De quando em quando, sorvia um gole mais longo, abria o Livro e escrevia sem interrupção durante uns quinze minutos. Depois tornava a fechar, bebia outro gole e voltava a examinar os presentes. Aquele escrutínio entremeado de anotações era tão ameaçador que muitos deixaram de frequentar o bar.

Até que, numa noite de lua nova, voltando ao seu quarto de pensão, Emiliano foi atacado por dois encapuzados. Um agarrou-o pelo pescoço, outro pelo braço que segurava o Livro. A primeira reação de Emiliano foi tentar fugir. Mas, quando percebeu que queriam lhe tomar o Livro, virou bicho. Agarrado a sua obra, distribuiu cotoveladas, pontapés e cabeçadas com tal ferocidade que pôs em fuga os atacantes.

Depois daquela noite, ninguém mais viu o Livro dos Desaforos. Emiliano passou a andar com um pequeno caderno. De vez em quando, tirava o caderninho do bolso e escrevia algumas linhas. Era evidente que agora, durante o dia, ele só fazia anotações; os verdadeiros desaforos eram escritos à noite, sem pressa, com certeza mais elaborados e ainda mais demolidores.

Oculto, o Livro Negro cresceu na imaginação do povo não só como ameaça mas até em tamanho. Havia quem garantisse que, no tempo em que Emiliano ainda o carregava consigo, o Livro ocupava todo o tampo da mesa do bar. Havia também quem sussurrasse que as páginas cheiravam a enxofre, que Emiliano tinha parte com o Coisa Ruim, que celebrava missas negras usando o Livro como missal, e que, depois das noites de lua nova, o quintal atrás da pensão, debaixo mesmo da janela do quarto dele, amanhecia coberto de pegadas de bode.

E não faltava quem afirmasse ter lido trechos do Livro e até o citasse como referência ao fazer suas próprias críticas. Por menos que se acreditasse nessas mentiras óbvias, elas sempre deixavam um rastro de temor. A beata Francisca jurou ter tido uma visão: um anjo de olhos tristes havia aparecido na frente dela com o Livro Negro aberto nas mãos. Ela dizia o número exato de páginas – 666 – e jurava guardar segredo até a morte sobre o que lera nelas. Ninguém acreditava na história do anjo, mas o fato é que a beata passou a ser tratada com mais respeito.

Houve até quem planejasse o assassinato de Emiliano. E quem dissesse que cópias do Livro, já em mãos de editores, fariam de cada personagem um suspeito, caso o crime se concretizasse. Entre a raiva e o medo, a cidade foi se acostumando a conviver com aquele incômodo, até porque, com o tempo, tanto o medo quanto a raiva definham, se não são alimentados com novas histórias.

O que o povo não sabia é que, no silêncio do isolamento, a obra de Emiliano evoluía. Esgotadas as possibilidades da crônica, ele deixou de se interessar por seus concidadãos. O poder de sua literatura secreta já o afastara da cidade muito mais do que o temperamento recluso ou o fato de ter vindo de fora. Emiliano não pertencia mais àquela cidade nem a outra qualquer. Morava no mundo das palavras. E, à medida que se embrenhava naquele mundo, sua escrita ficava cada vez mais sintética, mais precisa. Se antes o caderno de bolso era um resumo a partir do qual ele desenvolvia o texto do Livro, agora o texto do Livro era o resultado de uma depuração cada vez mais rigorosa do caderno. O excesso de adjetivos era coisa do passado. Chegou o tempo em que, de muitas semanas de notas, não emergiam mais que cinco ou seis palavras compondo a frase exata.

Solitário por temperamento, a literatura deu rigor e objetivo a sua solidão. E a cidade, por seu lado, seguiu arrastada pela correnteza do mundo. A televisão atropelou os mexericos no final da tarde, o jornal local deixou de circular, o Livro Negro dos Desaforos perdeu espaço no imaginário coletivo. Passados alguns anos, a cidade já não via na escrevinhação do agente dos Correios mais que mera esquisitice de um velho solteirão.

Os tempos de Emiliano e da cidade se apartaram. O dela acelerou, o dele parou à cata do verso perfeito.

Aposentado, Emiliano virou algo assim como um santo de cuja existência o povo não se dava conta, nem tinha por que se dar.

As palavras, para ele, há muito haviam perdido qualquer sentido de ligação com as outras pessoas. Eram instrumentos de um processo individual de purificação, como os metais depurados pelos alquimistas. Através delas, Emiliano alcançava a iluminação ou a loucura, provavelmente um pouco de cada.

Então, o Livro Negro dos Desaforos, de que ninguém mais se lembrava, acabou se tornando de fato o missal de uma espécie de ofício religioso, o instrumento de um ritual em que Emiliano atingia, através das palavras, o estado místico de contato direto com a Divindade, o Uno, o Real, o Universo – com seja lá o que for que palavra alguma pode expressar.


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