João Paulo Vaz

O lugar do herói

 

Contos e outras histórias, agosto de 2008
por Haron Gamal

Bem articulado na divisão em quatro partes, o livro Sexmaster 5 e outras histórias, de João Paulo Vaz, apresenta vinte e três contos que compõem um conjunto não apenas harmonioso, mas que consegue chegar à completude, talvez objetivo do autor. Privilegiando as relações pessoais e contemplando a poesia existente no dia-a-dia, seu terceiro livro não decepciona.

No primeiro conto, há a chegada de uma mulher e um menino a um ferro velho, onde quase incógnitos passam a viver. O narrador também é alguém que está ali num semi-anonimato, procurando fugir de um passado que lhe pesa às costas. Quando a mulher é privada da criança, ele nos diz: “o grito de Alice vibra entre as ferragens e nos meus ossos. Soa como as buzinas a ar comprimido dos caminhões maiores.” O espaço é imenso para a pequenez desses seres que tateiam a própria existência e habitam um mundo sobre o qual não conseguem exercer poder algum. Resta a eles ficar “olhando juntos as seis pistas de asfalto e o sol que desaparece por trás da fumaça dos motores.” Acertada a escolha deste como primeiro conto, porque durante todo o livro encontraremos personagens que procuram juntar os próprios cacos para dar sentido às suas vidas. Nessa primeira parte, como o próprio título nos revela “plano 1 – do amor”, os contos apontam para esse elo, o amor, sentimento que escapa a qualquer tipo de explicação mas que não se consegue viver sem ele. Em “A mulher do rio”, um personagem se bate às voltas com uma boneca trazida pela correnteza. Ele a resgata, amarra-a às costas e vai rio acima à procura de seu dono. Apesar de se tratar de uma boneca, ela acaba por ter uma função surpreendente na vida de dois homens. “Dois ovos, um tomate e a mulher do apartamento ao lado” mais revela sobre um narrador sobressaltado pelo comportamento da vizinha que se vê abandonada. “Manhã de domingo”, “Chuva da tarde” e “Frágil teia do desejo” apresentam personagens cujas escolhas é a solidão. Mesmo que em “Chuva da tarde” o homem tenha a companhia de Marta, ela esteve longe dele durante muitos anos e, agora, o relacionamento parece fazer água. Um outro ponto positivo desse conto é a menção à resistência à ditadura militar. João Paulo, nascido em 1949, sempre que pode dá mostras da politização que marcou a sua geração. “Frágil teia” apresenta um homem que observa e idealiza uma mulher que está na praia, mas se decepciona ao reparar a revista que ela lê. “Anjo polar” apresenta as relações ausentes estabelecidas a partir da Internet.

“Plano 2 – do humor” começa pela realização das fantasias sexuais de um casal, mas logo adiante o que na verdade transmite, através dos outros seis contos, é a desumanização. Na teia do humor, deve-se ressaltar Château d’Orly, onde o protagonista recebe de herança um apartamento suntuoso, mas não possui dinheiro para pagar a taxa de condomínio, vendo-se às voltas com a função de síndico. Há de se fazer menção elogiosa ao conto “Como se fosse essa noite a última vez”, em que o autor envereda por um tipo de ficção científica muito original; apesar das peripécias das personagens, a questão principal é a realização do prazer e, conseqüentemente, no que há de mais humano nele: o sexo. “Invasão de Privacidade”, “Telefonia fixa” e “Papai na TV” têm como fio condutor a violência que a imagem exerce sobre pessoas nos dias de hoje; principalmente no último, porque estão implicadas as vantagens comerciais sobre a pequenez humana.

Em “plano 3 – da construção do herói (masculino)” destacam-se “O enterro de Juvenal Batista”, em que o personagem bem sucedido faz uma viagem no tempo ao comparecer ao enterro do pai de um amigo de infância, e “O dia em que meu pai matou o cachorro”, pungente narrativa, que inaugura a entrada do herói no mundo adulto.

A última parte, denominada “plano 4 – de ataque, fuga e rendição”, consagra talvez o objetivo do autor e a qualidade literária da obra, com os dois contos – que voltam ao viés de ficção científica muito bem trabalhada – “Visita anual” e o que dá título ao livro: “Sexmaster 5”. No primeiro temos um futuro sombrio: o fiasco a partir de experiência com a clonagem de seres humanos leva as vítimas ao total abandono. No último, podemos observar a tentativa de restabelecer as relações amorosas e sexuais entre os seres humanos num mundo em que amor e sexo tornaram-se um jogo a distância, através de imagens. A vitória é de quem submete o oponente ao descontrole diante do prazer.

É importante observar neste livro que, embora muitas vezes o foco privilegie situações e personagens que não nos permitem antever qualquer possibilidade de saída, os belos textos de João Paulo mostram que a literatura pode ser instrumento de resistência e de beleza.

Sexmaster 5 e outras histórias
João Paulo Vaz
Ed. Cais Pharoux, 159 páginas.


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