João Paulo Vaz

Sem floreios ou esoterices

João Paulo Vaz traz inteligência para o conto contemporâneo

Jornal do Brasil, setembro de 2005
por Jair Ferreira dos Santos

“Justamente quando começavam a sentir o sabor da vitória, seus oponentes percebiam-se de repente aprisionados pela satisfação absoluta, esvaziados de qualquer vontade e entregues a uma sinfonia orgástica genial, improvisada a partir de suas próprias linhas melódicas mais íntimas.” É com esse pique verbal e intelectual que o engenheiro eletrônico carioca João Paulo Vaz constrói o conto Sexmaster-5, uma pequena obra-prima sobre jogos de sexo virtual no futuro em texto que recebeu menção honrosa no Prêmio Guimarães Rosa, concedido pela Radio France Internacionale em 2002.

A partir daí João Vaz acumulou outros cinco prêmios, o mais recente ao vencer neste ano o concurso Josué Guimarães, promovido pela Universidade de Passo Fundo (RS). Sua primeira coletânea, Sete estações (7 Letras, 2003), obteve escassa atenção da crítica, mas a segunda, e premiada, A mão do chefe (Nova Prova, 2004), vem tirando da sombra um autor capaz, dizem boas cabeças, de introduzir notas de objetividade, arquitetura, inteligência, sutileza psicológica na cacofonia do conto contemporâneo.

O livro reúne 17 histórias organizadas numa linha ascendente de questionamento e densidade dramática. É assim que seu humor inicial explora, em Calcinha preta de renda, o que pode haver de hilário nas “pequenas crueldades conjugais”, para em seguida satirizar, não sem um toque de impiedade, a negação da morte em Encontros esquecíveis. Em A mão do chefe, a frase “tira a pata de cima da minha mesa” ecoa como um mantra do despotismo burocrático e do seu reverso – a comicidade que o ódio, o desprezo, a vendeta engendram no ambiente de trabalho.

Atenuado o humor, o enredo cede espaço a personagens femininas fortes em textos mais longos, e não é improvável detectarem-se aqui e ali, como referências, as digitais de Rubem Fonseca e Machado de Assis. Elas acentuam a qualidade e a seca pungência de Receita de cozido, narrativa em que a cozinha se torna o pelourinho da memória para a mulher de um exilado pela ditadura militar.

Os mesmos traços, acentuados pelo mistério e a perplexidade, fazem de Recuperando Helena o ponto alto do livro. Aqui um escritor é obrigado a lidar com a descoberta da sexualidade perversa de sua mãe, morta, criatura “dona de um queixo perfeito que sabia erguer com decisão… e fazia seus olhos negros brilharem, furiosamente belos”.

Não se devem esperar experimentalismos, esoterices ou divagações líricas da prosa de João Paulo Vaz. Seu estilo sem floreios, seu ritmo seguro ao narrar apontam para uma disciplina que não dá tréguas ao autor nem ao leitor no confronto com o real.


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